segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Porquê Península de Itapagipe

Para falar da rua onde fui criada daria um grande livro, de tantas lembranças boas e outras nem tanto. Seu nome: Avenida 1º de Agosto, ou seja, Bêco João do Boi comumente conhecido.

Mas antes preciso esclarecer algumas coisas até chegar ao Bêco João do Boi, como por exemplo:

- Como surgiu esse lugar;
- Os índios que a habitavam;
- O Caminho para as Índias;
- A vinda dos portugueses, dos escravos; 
- Como se deu seu desenvolvimento, suas histórias, do que viviam e como se deu o seu povoamento. 

Vamos conhecer mais esses locais da Península de Itapagipe

 A Av. 1º de Agosto está situada numa transversal da Rua Padre Ovídio, rua esta que liga o Caminho de Areia, na altura do SESI até a Rua Visconde de Pedra Branca ou até a Baixa do Bonfim, como queira, porque fica próxima.
Está situada também na Península Itapagipana, que surgiu aos poucos através de aterro natural, de sedimentos ao longo de uma faixa entre o continente e uma pequena ilha da Baía de Todos os Santos, até que se formou um istmo, uma península que interligou essas faixas de terras.
Os índios Tupinambás foram os primeiros habitantes dessa península que gostaram muito e aí fizeram sua primeira aldeia. Eles classificavam as regiões e localidades de acordo com as rochas encontradas no local, diz o geólogo Alex Pereira, eu seu ensaio “A colina sagrada era uma ilha”. E Itapagipe significa pedra que avança para o mar.
Entre as aldeias que conseguiram se manter autônomas por mais tempo foi a de Itapagipe, conta a antropóloga Maria Hilda Paraíso. Mesmo que, bem ao lado, já existissem propriedades como o engenho do provedor-mor Antonio Cardoso de Barros, na Calçada, ou a fazenda de João Avelosa um pouco além do Lobato.
Os Tupinambás não continuaram porque Garcia D’Ávila brigava muito com eles, por conta de sua autonomia.
Salvador foi criada para servir de caminho para as Indias, para ser entreposto comercial. Como tem a corrente marítima favorável para o Oceano Atlântico, vai até Cabo Verde e daí até a China.
Antes de 1500 e durante três séculos, Salvador era economicamente importante por ser uma capital administrativa e de guerra.
Salvador surgiu timidamente. Uma cidadela protegida por muros e acessível somente por duas portas, a de São Bento e a do Carmo. Do lado de fora, dezenas de aldeias indígenas, alternando-se com roças de colonos.
Garcia D’Ávila iniciou seus negócios lucrativos em Itapagipe, instalando lá currais e olarias, ainda no século XVI. Nessa mesma época, começaram a erguer os fortes de Monte Serrat, onde muito sangue foi derramado, como o do general holandês, Johan Van Dort.
No século XVII chegaram os invasores holandeses, com 26 (vinte e seis) navios, com 1.600 marinheiros, 700 soldados e 500 bocas de fogo. Com essas forças não se entenderam, enfraqueceram diante da resistência de brasileiros e portugueses. Em julho desse mesmo ano o capitão Francisco Padilha surpreendeu o grupo inimigo, comandado pelo próprio governador Van Dort foi atacado, morto, retalhado e levado para o Forte de Monte Serrat.
Nesse mesmo século foram construídas várias capelas e igrejas na península. A de Nossa Senhora de Monte Serrat, para proteger os militares; Nossa Senhora da Boa Viagem e Bom Jesus dos Navegantes, para abençoar os navegantes; Nossa Senhora da Penha de Itapagipe, para consolar os perseguidos e, por último, Nosso Senhor do Bonfim, para proteger todos que o invocassem. Se bem que a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim foi construída por um náufrago português que, para se salvar de uma tempestade “prometeu construir uma igreja no ponto mais alto que avistasse”, e foram os negros que começaram com a lavagem.
Ainda no século XVI, precisamente em 1556, houve uma briga entre índios e portugueses por causa do Engenho do Cardoso, devido a morte de um líder da aldeia. Os revoltosos aprisionaram o gado, os vaqueiros, vários escravos e três moradores, depois seguiram para Itapuã. Os índios atacaram novamente o engenho. O governador geral Duarte da Costa ordenou uma ofensiva maior. Com tantas mortes, é impossível que a aldeia de Itapagipe tenha resistido a um conflito dessas proporções.
Os anos passaram, as transformações prosseguiram.
No final do século XVI, Salvador ainda pequena, mas estava em expansão.
Haviam três ruas na parte alta, na parte de baixo havia o bairro da praia, a ribeira das naus e as casas comerciais, hoje conhecida como Comércio.
Nos arredores, plantações de cana e algodão. Em Água de Meninos, ficava o engenho de Cristóvão Daltro e na ponta de Itapagipe, duas olarias e currais de gado pertencentes a Garcia D’Ávila, conta o historiador Luís Henrique Dias Tavares, em “História da Bahia”.
Foi na península, portanto, que começou a trajetória dessa família que, através da pecuária e do açúcar, chegou a ser a mais rica do país.
O primeiro Garcia D’Ávila que chegou a Salvador em 1549 na comitiva de Tomé de Souza, que alguns historiadores narram, era seu pai.
Da primeira leva de gado que veio de Portugal, duas vacas foram destinadas a D’Ávila, esses exemplares foram para Itapagipe, que se multiplicaram em muitos. Mas a península era muito pequena para as ambições desse homem, que não se contentava em apenas cuidar de gado e fabricar cerâmicas. Ele e seus descendentes enriqueceram tanto que chegaram a possuir terras que iam da Bahia à divisa do Maranhão com o Piauí. O centro do império ficou no castelo medieval “Casa da Torre”, na Praia do Forte.
Na península também foi construída uma fortaleza conhecida como “Castelo de Itapagipe”, Forte de São Felipe ou do “Monte Serrat”, em 1587. Também o de Santo Alberto ou “Lagartixa” perto do final do ferry boat e o da Jequitaia. A preocupação era grande com invasões e saques vindo dos inimigos pelo mar.
Por sua tranquilidade ao redor dos templos e em torno das atividades marítimas, como pesca, transporte e reparo de embarcações, a península foi desenvolvendo uma vida própria, um jeito pacífico e festivo, uma hospitalidade incomum.
O veraneio foi uma febre na primeira metade do século XX, mas havia também muita gente rica e poderosa que optaram por ali morar.
Haviam cinemas como o Madragoa, hoje um posto de gasolina e Circulo Operário, hoje o Templo de Irmã Dulce, como também o Itapagipe Cine-teatro, um heliporto – primeiro hidroporto baiano, a Sorveteria da Ribeira, Clube dos Oficiais e da Marinha.
Na praia era só escolher entre a natação, a pescaria, o bate-papo, o remo ou o futebol.
O remo tinha seus dias de glória e glamour, todos iam assistir as regatas, os homens engravatados.
Uma das belas mansões que ainda restam, é a do Monte Serrat, onde hoje está o CRA-IMMA, a mais bonita da península.
Sede de várias fábricas desde o século XIX, como Empório Industrial do Norte, de Luís Tarquínio, na Boa Viagem, acabou trazendo mais de 30 fábricas poluentes, exalando o mau cheiro, dentre elas a Chadler, a Sousa Cruz, a Sambra, CQR, Fábrica de Sabão, Café Cravo, foi uma fase amarga, que espantou muitos veranistas.
A Chadler e Sousa Cruz provocavam mau cheiro e doenças e eram as campeãs em reclamações.
Certo que geraram muitos empregos, mas poluíram e intoxicaram o ar e pessoas. Não tem um itapagipano que não sofra de algum tipo de alergia, principalmente respiratória.
Vale lembrar aqui que áreas como Bogari, Caminho de Areia e Ilha dos Ratos serviam como esconderijo para escravos fugidos, explica Carlos Alberto de Carvalho, em seu livro “Tradições e Milagres do Bonfim”, de 1915. O desembarque ocorria num casarão da Ponta de Humaitá, onde ocorriam leilões.

O Hospital Português ficou de 1886 até 1931, onde hoje é o Convento da Sagrada Família, ao lado do Hospital do mesmo nome.

A rua onde morei

Quando mudei da Rua Castro Alves, no Caminho de Areia, para o Bêco João do Boi, estava com quatro para cinco anos de idade. Lá permaneci até os 25 anos, onde morava com meu pai e minha avó paterna.
Era uma avenida de casas simples, pequenas, pessoas humildes, festeira. Minha avó era uma moradora que ajudava qualquer um que batesse em nossa porta.
Lembro que não tínhamos água encanada e íamos buscar num chafariz comunitário do Seu Zeca, assim como todos na avenida.
Tinha a vendinha de Seu Francisco, onde ele vendia as coisas a granel e para alguns, fiado. Tudo anotado em sua famosa caderneta.
Na rua detrás, havia um Senhor João que vendia leite de gado, carvão e outras iguarias. Daí veio o nome Bêco João do Boi, porque ele também vendia porcos, peixe e bois da roça dele.
Nas datas cívicas e religiosas, no carnaval, todos participavam enfeitando o Bêco, fazíamos os quitutes gostosos da época.
Lembro que havia uma certa discriminação em relação às outras ruas, como moradores do conjunto IAPTEC, Rua do Céu, Rua da Glória, Cosme Moreira, Henrigue Dias, etc., porque morávamos num “bêco”.
Mas a garotada não se convencia não. Tanto íamos brincar por lá, como eles vinham prá cá.
Nossa Avenida ficava perto de tudo: Igreja do Bonfim, Sesi, praia da Av. Beira Mar, do Largo do Papagaio, das escolas, da Praia da Boa Viagem, da Ribeira.
Eu estudei na Escola Vítor Soares, Alfredo Amorim, Pedro Álvares Cabral, Colégio Estadual Costa e Silva, João Florêncio Gomes e, por fim, no Luís Tarquínio, pois queria fazer e fiz Técnico em Administração. Tudo era perto e nós todos íamos caminhando, não precisava de ônibus.
Eu participava nessas escolas do coral, educação física, maculelê, basquete, bandas marciais, teatro, música.
As crianças eram criativas na confecção de brinquedos pois nossos pais não podiam comprar industrializados. Mesmo assim era só alegria.

Ah, e fui Bandeirante também. Aprendi muito mais coisas, inclusive de sobrevivência na mata, aprendi a armar barraca, praticávamos eventos solidários como visitas aos abrigos de velhos, levando alegria e lanches, vendíamos biscoitos nas residências para arrecadar para nossas viagens de acontonamento e acampamentos. 

ENTREVISTA

Segundo relatos de uma das moradoras mais antigas, há 35 anos no local, D. Jovina, hoje com cinco filhos adultos, ela relembrou comigo que as ruas não eram asfaltadas, quando chovia alagava tudo, difícil de passar para ir trabalhar ou irmos para a escola, tinha que colocar tábuas como pontes para passarmos.
Hoje, onde é o Colégio Estadual Paulo Américo, era um sítio com muitas frutas, com lagoas, do Sr. Raimundo e D. Maria das Dores. Eles deixavam as crianças brincar no sítio, inclusive eu, que adorava subir em mangueiras, pés de araçás e tomar banho na lagoa limpinha!
Ela foi morar lá porque começou a trabalhar como zeladora na Escola Alfredo Amorim, que ficava perto.
Também alcançamos o bonde elétrico da SMTC, ela falou do Clube Beneficente da Rosa do Adro onde era para o pessoal da Melhor Idade frequentar para festejos, aniversários, danças de salão, quermesses, etc.
Os comerciantes da época eram o Sr. Francisco, com sua vendinha a granel, Sr. Bobô uma quitanda de madeira que vendia tudo que criança quer, Seu João do Carvão, o primeiro bar de Seu Wilson, depois veio o do Seu Zé.
Sem falar que as famílias iam todas mariscar na Av. Beira Mar, quando a maré estava baixa, para trazer comida para casa.

Relembramos as festas da Península como Bonfim, que ficávamos sentadas nas cadeiras na frente do bêco para ver as pessoas passarem para o Alto do Bonfim, a festa do Senhor dos Navegantes na Boa Viagem, a Segunda-feira Gorda da Ribeira, as festas no SESI, do São João, que enfeitávamos o bêco, os quitutes, os licores artesanais, o mesmo acontecia com os festejos de Santo Antonio, onde algumas casas faziam o altar para Santo Antonio e nos dividíamos para ir rezar na trezena D’Ele e depois saborearmos os “comes e bebes”.